A ÉGUA QUE PARIU UM VITELO

Uma vez um homem de Fajão e outro das Relvas foram à feira. Um comprou uma vaca e outro uma égua. Na volta da feira voltaram às Relvas ao anoitecer, e como para Fajão ainda era longe, o homem das Relvas convidou o companheiro a ficar ali para o outro dia. Ele aceitou, e meteram ambos os animais na mesma loja.

Ao outro dia apareceu na loja um vitelito. Logo o dono da égua se apressou a dizer:
Olha, a minha égua já tem aqui um vitelo!

- Não é nada! É da minha vaca!

Discutiram, discutiram, até que resolveram ir a Fajão consultar o Juiz. Ele é que diria de quem era o vitelo.

Lá abalaram com os animais. Passaram na Ponte de Cartamilo, na Barroca das Carvalhas, subiram as voltinhas, e quando já iam perto do Reboludo, nem de propósito: vinha o Juiz de Fajão a chegar à estrada, vinha de uma propriedade que tinha lá em baixo à borda do rio e trazia ao ombro uma sachola e uma abóbora debaixo do braço.

Logo ali os dois apresentaram o assunto, cada um, é claro, puxando a brasa à sua sardinha.

O Juiz ouviu, mas logo se fez muito exaltado e disse muito nervoso:
Deixem-me, que eu hoje venho fora de mim, venho mesmo estaporado! Hoje não posso dar sentença.

- Então que é isso, Sr. Dr. Juiz, que foi que lhe aconteceu?
- Então não querem saber?
Eu tinha lá em baixo à borda do rio um bocado de trigo que era um louvar a Deus!
Estava mesmo bonito.
Mas esta noite as trutas saltaram-me nele e comeram-no todo.

- Isso não pode ser, disse logo o dono da égua. Tenho pescado muita truta, mas da idade em que estou nunca ouvi dizer que as trutas saltassem para o lameiro para comer erva.
E vai logo o Juiz de Fajão: Pois eu, da idade em que estou, também nunca ouvi dizer que uma égua pudesse parir um vitelo!
Estava ditada a sentença..


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