O LOBO MORTO

Uma vez vinham três homens na serra da Amarela a caminho de Fajão. A certa altura encontraram um lobo morto, e lembraram-se de lhe fazer cada um seu verso, e quem fizesse o verso mais fraco pagaria o almoço quando chegassem a Fajão.

Disse um:

Este lobo, desde que nasceu, Nunca tal lhe aconteceu.

Disse outro:

Este lobo, desde que foi nado, Andou mais tempo descalço do que calçado.

Disse o terceiro:

Este lobo, em toda a sua vida, Comeu mais carne crua do que cozida.

Começaram depois a discutir qual dos três havia de pagar o almoço, e chegaram a Fajão sem nada terem resolvido.

Foram consultar o Juiz de Fajão.

O Juiz ouviu os versos, achou-os todos igualmente bons, e sentenciou:

«Pagam o almoço todos os três, e comemo-lo todos os quatro.»

No meu tempo ouvi contar cá a uns velhotes da minha zona de que de facto passaram aqui na Rocha uns senhores almocreves.
Bem; que é que sucedeu?
Encontraram um lobo morto.
De forma que, é claro, houve ali uma certa polémica entre os três almocreves, porque cada um queria dizer a sua coisa mais acertadinha, da maneira como o vivente tinha passado aquela jornada.

Bem; e então fizeram, como é que se diz? uma espécie de concurso, para aquele que fizesse o pior verso pagar o almoço em Fajão.

Fizeram cada um seu verso. De maneira que diz aqui assim um:

«Este lobo, desde que foi nado, andou sempre mais descalço do que calçado.»

E é certo.
Nunca lhe compraram uns sapatos, nem nada... Outro disse assim:

«Este lobo, em vida, comeu mais carne crua do que cozida.»

E é certo.
Também não havia restaurantes, não havia nada...
E o outro então por último disse aqui assim:

«Este lobo, desde que nasceu, foi esta a pior jornada que deu.»

E sem dúvida, não tinha dado nenhuma jornada pior do que aquela.

Bem!
Vêm os três para Fajão, onde havia o Senhor Doutor Juiz.
Expuseram-se os casos: aquele achava-se com razão, porque tinha acertado;
o outro achava-se com a razão , porque tinha acertado; e o terceiro achava-se com a razão, porque tinha acertado.

Muito bem. Depois do Senhor Doutor Juiz ouvir aquilo, a opinião dos três, disse:

«Muito bem!

Vou-vos resolver o assunto.
Enquanto à minha consciência, entendo que todos ganhastes.
Mas pagais o almoço todos três e comemo-lo todos os quatro».

( outra versão)

Vinham três estudantes ali ao Penedo Portelo e encontraram um lobo morto. E disseram assim:

O que fizer o melhor verso a este lobo paga o almoço para nós todos em Fajão.

Um começou:

Este lobo, enquanto vivo. Comeu mais carne crua do que cozida.

( Está certo.) Vai o outro:

Este lobo, enquanto nado, Andou mais tempo descalço do que calçado.

E vai o terceiro:

Este lobo dormiu muita sesta, mas nunca dormiu nenhuma como esta.

(Estava entendido...)

É claro, começaram todos :
é porque eu ganhei, porque eu ganhei, porque eu ganhei...

Resolveram ir para o Juiz de Fajão. O Juiz ouvi-os e disse:

«Bem!

Isto está muito exacto, mas pagais o almoço os três e comemo-lo todos os quatro.»


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