![]() |
Aconteceu que um dia calhou pernoitar um almocreve em casa dum lavrador. Altas horas da noite ouviu um reboliço em casa e perguntou o que era aquilo. Disseram-lhe que estavam a prender os bois e a preparar o carro para ir à Serra buscar a manhã, porque aquele mês tinha-lhe calhado na escala.
O almocreve viu logo ali uma boa ocasião para fazer negócio, e perguntou:
Quanto dão vocês a quem vos traz um bichinho que todos os dias vos diz quando é de manhã?
- Trinta mil réis e uma carga de presuntos (era o dinheiro em Fajão).
Eles aceitaram, e o almocreve, à volta trouxe-lhes um galo. O galo cantava logo de manhã e eles assim escusariam de ter tanto trabalho de ir buscar a manhã.
Mas esqueceram-se duma coisa: não perguntaram ao almocreve que é que o bicho comia. Lá vai então um a correr a ver se ainda apanhava o almocreve para lhe perguntar o que é que o bicho comia. Logo que o avistou perguntou cá de longe: Ó senhor, que é que o bicho come?
- Ora! Que é que o bicho come! Come do que come a gente!
O homem entendeu «o bicho come a gente». Passou parte ao povo, «o bicho come a gente», e todos à uma se atiraram ao pobre bichinho até darem cabo dele, e assim continuaram a ir todos os dias buscar a manhã, cada um conforme a sua escala.
«Saberá Vossa Senhoria que comigo somos catorze».
