A VISITA DO BISPO

A certa altura Fajão foi promovido com um novo cura, e logo nesse ano o Senhor Bispo anunciou a sua visita pastoral.

Foi numa tarde amena que o dito cura se encontrou com o Juiz em passeio, e logo o cura disse para o Juiz: Olhe, qualquer dia vem aí o Senhor Bispo, em visita pastoral, e o que é certo é que eu não estou ainda lá muito bem habilitado para orientar as coisas.

E logo o Juiz disse: Ó Senhor prior, não se preocupe. Se quiser, dê-me as suas ordens, que eu trato disso tudo e resolvo-lhe os problemas todos.

Está bem, eu agradeço; trate-me lá disso tudo, para a freguesia não ficar mal. Assim foi. O Juiz preparou tudo, e no dia da visita lá foram todos para a serra esperar o Senhor Bispo, e está claro que à frente ia o Juiz, para ser o primeiro a cumprimentá-lo. O Juiz aproximou-se, tirou o barrete e cumprimentou: «Então , Senhor Bispo, passou bem? Fez boa viagem? E como está a Senhora Bispa, e os bispinhos todos, estão bons?»


O Senhor Bispo não se desmanchou, e respondeu:- Bem; está tudo bem, muito obrigado. Depois foram todos em procissão por ali abaixo. Perto da igreja, o Senhor Bispo paramentou-se e lá foram seguindo. Ao chegar o cortejo à igreja, o Senhor Bispo, que era muito alto, e ainda com a mitra em cima, estava a ver que não podia entrar. Então o Senhor Juiz chegou-se ao pé do Senhor Bispo e disse-lhe ao ouvido: «Senhor Bispo, faz favor de baixar a cornadura, se não bate lá em cima!»
Bem. Pois o Senhor Bispo baixou a cabeça e entrou.

Na igreja as cerimónias decorreram como de costume. Depois foi a parte exterior, as cerimónias civis. Dirigiram-se aos Paços do Concelho. No cimo da escadaria o Senhor Bispo tropeçou e rolou pelas escadas abaixo. Ora o Juiz tinha dito ao povo para fazerem o que o Senhor Bispo fizesse; então, julgando que aquilo também fazia parte das cerimónias, puseram-se todos a rebolar pelas escadas abaixo.

Depois daquele percalço entraram todos nos Paços do Concelho, para uma recepção e almoço. Tudo normal, como é uso nestas visitas. Mas a certa altura o Juiz, que não tinha esquecido nada para preparar uma recepção condigna, e por isso tinha preparado uma ca(ga)deirazita; como o Senhor Bispo não tinha pedido nada, lembrou-se de que ele devia precisar. Sim, porque todos nós sabemos o que são necessidades. Então chegou-se ao pé do Senhor Bispo e disse-lhe ao ouvido: Olhe lá, Senhor Bispo, talvez precise de cag...


- Não será pior, não! – respondeu ele. (Contam outros pormenores que para o caso não adiantam).

O que é certo é que o Senhor Bispo veio muito bem impressionado com a visita pastoral a Fajão.


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